terça-feira, 22 de janeiro de 2008

ESSE PORTUGAL MEDONHO


Durante o Estado Novo a ideia romântica de que Portugal tinha uma vocação agrícola foi, à medida que se revelava profundamente errada, substituída pela teoria de que a Nação tinha condições excelentes para a florestação. Assim um drama abateu-se sobre as gentes da serra, os melhores espaços vitais, os pastos dos baldios, os direitos de fruição consignados pelos Condes e Reis de Portugal foram violados, Salazar decretou a florestação de grande parte da serra, reprimindo fortemente todos os que discordaram ou se opuseram, causou enormes danos ao povo destas aldeias. Sem espaço, rebanhos inteiros desapareceram, a fome generalizou-se, as aldeias despovoaram-se, massificou-se a migração e a emigração, esta última “a salto”, por ser proibida. Hoje quase nada resta dessas florestas, a maior parte ardeu após o 25 de Abril de 1974 as florestas da Lombadinha e da Junqueira, os azevinhos e carvalhos centenários, do Ramiscal, mais recentemente em 2006, a saudosa floresta do Mezio e da Travanca.

Os guardas florestais residentes e presentes, foram extintos e no seu lugar surgiram uma espécie de vigilantes motorizados que raramente são avistados e quando isso acontesse é ve-los passear na estrada.
A vigilância deste Parque Natural, deveria ser confiada a residentes, a nativos, a quem a conhece e a vive todos os dias. Vemos com muita frequência carros todo-o-terreno, com o distintivo do Parque, a circular em Braga e raramente nas estradas da serra.
Da floresta, quase nada ficou apenas alguns retalhos e a renovação natural, neste contexto de natureza desestruturada não tem critério, é oportunista, as giestas e os piornos são as espécies que se generalizam, com enorme prejuízo para o ecossistema e biodiversidade, face à inércia do nosso ‘desgoverno’. As consequências serão a curto prazo o desaparecimento de espécies da flora e da fauna. A floresta, todo o idílico meio natural, o património construído, os ares, os trilhos, a gastronomia, a qualidade dos alimentos nesta serra produzidos, poderiam ser um determinante atractivo turístico e por essa via, um factor económico necessário para a preservação dos costumes das pessoas e do habitat, nesta terra que um dia viu nascer Portugal. Nestes últimos anos tem-se verificado um decréscimo acelerado da população, um abandono para o litoral. A agricultura foi sempre de subsistência e a criação de gado já não é rentável, devido á pouca divulgação do que aqui se produz com excelente qualidade e à concorrência das carnes, de outras regiões e do estrangeiro, de baixa e duvidosa qualidade, proveniente de gado alimentado com rações, contaminadas por medicamentos e outros químicos, mas a preços muito mais acessíveis para o consumidor e por isso preferidos. Paralelamente, as excessivas restrições, que o Parque Nacional da Peneda Gerês, impõem às populações residentes, sem quaisquer contrapartidas, contribuem para esta desestruturação da vida na serra. Em outros países residir num parque nacional é uma mais-valia para as populações, inversamente em Portugal é uma penalização, situação que em nada contribui, bem pelo contrário, para o empenhamento destas populações na preservação da natureza e da biodiversidade. Assistimos ao definhamento das espécies, como a águia real, o gato montês e o lobo, por exemplo, este grande predador só não desapareceu destas serranias porque no lado espanhol, contíguo ao parque, há planeamento e uma política activa que vai de encontro aos interesses de todos. Os lobos passam a fronteira do lado de lá para o lado de cá, onde frequentemente são vítimas de envenenamento.
Queixam-se as populações que o Estado não paga os prejuízos que o lobo causa e quando o faz é tarde e mal. O Parque Nacional, partindo do princípio de que há abusos, muitas vezes o lobo tem a fama sem ter o proveito, obriga a um conjunto de provas que nem sempre são possíveis de obter, quando os lobos não deixam vestígios, os criadores nada recebem. Falta organização neste Portugal medonho.

A SERRA MARAVILHOSA


Lugar de sonho e de desejos, surgindo como canteiros, nesta maravilhosa criação da natureza e dos homens, a floresta, constitui um momento único de beleza e inspiração que nos absorve os sentidos e transporta para o infinito. A serra é um hino à vida.
Paisagem profundamente marcada pela erosão e profundas gargantas, escavadas nas rochas pelas correntes abundantes das chuvas e do degelo, nascentes, fontes, corgas e riachos, de pureza e transparência sem igual, abundantes de vida. As trutas encontram aqui todas as condições e são deliciosas . Esta serra é um prodígio da natureza, é um Lugar de Deuses emprestado aos homens para os educar. Aqui todos somos pequeninos, sentimos a animação dos instintos primários mais antigos, um acordar da nossa memória colectiva há muito adormecida pelo conforto da civilização, inspira valores de liberdade, nobreza e lealdade, respeito e gratidão à natureza.

AGRICULTURAS

A agricultura, depende estreitamente da criação de gado, quer pela força de trabalho e sobretudo pela fertilidade da terra que o estrume proporciona. Há um equilíbrio ou relação de dependência mútua entre a agricultura a pastorícia e o Homem, verificando-se, entre aquelas duas, quanto à primazia, alguma alternância de conjuntura, sendo, estruturalmente a criação de gado a deter a supremacia. Ninguém tenha dúvidas de que, nestas cercanias de terra pobre ou falta dela foi com o estrume que sistematicamente cobriu os campos, que as gerações anteriores obtiveram o seu sustento.
As culturas mais antigas, o centeio e as hortícolas, remontam a cerca de 6.000 anos e tiveram pouca importância, constituíam um complemento à pecuária e à caça. A grande revolução agrícola foi a introdução do milho, batata e feijão, vindos da América nos, séculos XVII e XVIII. Estas culturas generalizaram-se, provocando o aumento da população e novas arroteias, trabalhos medonhos, transformaram fraguedos e penedias em campos férteis, em socalcos, trouxeram a ditosa água de grandes distâncias, por encostas íngremes de dificílimo trabalho, disputando a serra aos deuses. Valentes que à sua medida, recriaram a paisagem, dando-nos testemunhos do imenso drama do Homem na luta pela sobrevivência, do génio dos que venceram. A vinha introduzida pelos romanos e a oliveira pelos mouros, cultivadas desde então, marcam profundamente a paisagem destas aldeias serranas.

OS GARRANOS


Os Garranos, são sem dúvida o elemento que mais se identifica com a serra e com os Homens, são rudes, nobres, francos, generosos e perseverantes, adaptados, em permanente luta pela sobrevivência, desde tempos muito remotos
O garrano nunca teve uma grande importância económica, o seu valor foi sempre muito reduzido e por isso abandonado, é o único animal que passa o ano inteiro na serra , onde nasce, vive e morre , amiude, nas presas dos lobos. Não são animais selvagens, embora vivam em liberdade, unicamente do que pastam na natureza, pertencem aos seus donos, podendo acontecer que estes desconheçam a sua existência.
Juntam-se em grandes grupos hierarquicamente organizados e liderados por um garanhão, elemento vital, com provas dadas e prontamente obedecido por todos.

Nos Invernos mais rigorosos, quando a neve e o gelo encobrem, por longos períodos de tempo, as encostas da Serra, são obrigados a descer e a competir com os bovinos, caprinos e ovinos, pelos escassos recursos, o que acentua o ostracismo a que são votados. Por esse motivo esta espécie foi sempre muito reprimida e só uma excelente dotação natural lhe permitiu sobreviver e representar, nos nossos dias um dos mais belos exemplos da biodiversidade, da força da natureza, nas cercanias de Soajo.


A PASTORÍCIE

Cabras e ovelhas são, paralelamente ao gado bovino, um elemento valiosíssimo na história das gentes destas cercanias. Todos os dias sobem os outeiros da serra e a sua guarda permanente, é confiada, rotativamente a todas as casas da aldeia. Constituía uma enorme responsabilidade, guardar o rebanho de ovelhas e cabras, cada lugar chegou a ter milhares de cabeças, até finais da década de 1950, eram dois pastores, um de cada casa, que cumpriam, nem sempre com sucesso, essa tarefa, preparando e aguardando esse dia com enorme ansiedade. Muitas vezes os lobos levavam a melhor. São, ainda hoje, uma preocupação para todas as famílias, em todos os lugarejos da Serra. Os lobos sempre estiveram presentes e em grande número até à década de 1970, muito perseguidos na actualidade, mas ainda assim activos, constituíam a mais seria ameaça destes rebanhos e nos dias de muito nevoeiro ou tempestade os pastores nem se atreviam a sair das imediações dos "eidos" e ficavam sempre de atalaia. Se alguma vez o Demo teve rosto, no imaginário colectivo local, certamente teria o focinho destes nobres, odiados e mal compreendidos, animais. Contudo não se conhece nenhuma notícia ou relato de um lobo ter atacado humanos. Alimentação, fabrico de instrumentos, utensílios, roupas, moeda de troca e reserva económica são algumas condições que definem a importância dos rebanhos, nesta terra de recursos escassos. Em particular, as cabras tinham, ainda, a vantagem de manter os montes limpos de matos, coisa que, em conjunto com a recolha de lenha nas matas, as roçadas do tojo para as cortes do gado e as queimadas de rejuvenescimento dos pastos explica a inexistência de incendios, nas décadas anteriores ao 25 de Abril de 1974.

NO LIMIAR DA SOBREVIVENCIA


Lutar desesperadamente pela vida foi uma constante no quotidiano destas gentes, as grandes construções comunitárias, as muitas verandas, espalhadas pela serra, os socalcos arrancados à rocha virgem e o fojo, (armadilha para lobos, constituída por dois ou mais muros em pedra com mais de dois metros de altura, em “V", ao longo de muitos quilómetros terminando em valas estreitas com um poço no fim), onde os lobos eram encurralados, mortos e objectos de rituais profanos e pagãos. As verandas tinham o importante papel de constituir um abrigo seguro contra os lobos e ursos, estes últimos extinguiram-se no século XIX. Os homens mais velhos ainda se lembram de estórias que os seus avós contavam, nos longos serões do Inverno, no aconchego do lume, falavam de 'lobos mansos de orelhas redondas' que entravam nos lugares e abriam as portas das cortes, de noite, matando e levando gado. Certamente foram os ursos que deram origem a estes contos. Nas verandas, ao escurecer, o gado era metido nos "cortelhos" e nos "currais", cercados por muros de pedra,ficando os pastores também abrigados, mas sempre atentos, auxiliados por cães de pequeno porte, de pouco apetite, tal como os donos e assim economicamente viáveis, estavam prontos para, a qualquer momento da noite, usar o sacho, única arma sempre à mão, e salvar os animais do seu destino natural.

PATRIMÓNIO PRODUZIDO


A construção de infra-estruturas, (verandas, calçadas, pontes, levadas, fojos, moinhos e as casas/cortes, onde o gado partilha com os Homens as mesmas paredes, "valendo-se uns aos outros, Homens e Animais”, constituem um património edificado notável, atendendo aos escassos recursos do ecossistema. As construções megalíticas são em grande número, encontram-se em vários níveis de altitude desde o Gião, o Mezio até ao Alto da Seida e apresentam diversos tamanhos, algumas já foram destruídas pelos trabalhos de florestação e outras ainda não foram estudadas. São construções que guardam o tempo na pedra dura, e revelam homens justos e honrados que respeitam os seus mortos. Os vestígios da existência do homem nestas serranias remontam a 8000 anos, presente nas Antas que mais ou menos conservadas são visíveis nos pequenos planaltos que vêem nascer o Sol. É já o Homem Neolítico que constrói as suas próprias sepulturas, não se conhecem vestígios da Pré-História Paleolítica mas é provável que por estes montes e vales tenham caçado com machados de pedra lascada, há mais de 50.000 anos. Caçar foi desde sempre uma actividade fundamental para a sobrevivência destas gentes, ursos, lobos, veados, cabritos-montês, javalis, corsos, gamos, texugos e raposas, foram as presas históricas desta região. Presentemente, a caça, não tem significado económico.